Goiânia, 03/04/25
Tribuna Livre Goiás
LILIAN DIAS · 11/09/2019

O Agro ainda engatinha na comunicação


Reprodução/Thinkstock

Por Lilian Dias

Num bate-papo informal com um produtor rural sobre como se comunicar com a sociedade, ele me disse o seguinte: “Falta uma liderança para nos instruir em relação à correta comunicação que o setor deve fazer”. Gentilmente, discordei, claro. Chega de salvadores da pátria. Além disso, tem muita liderança que brada pelos quatro cantos do País que a sociedade deveria realmente passar fome para valorizar o setor. Ou seja: pior do que ter um inimigo do agronegócio, é ter um líder com essa mentalidade, que mancha ainda mais a imagem da agropecuária brasileira.

Algumas entidades até tentaram fazer algumas campanhas, como o “Movimento Sou Agro”, em 2011, que contou com estrelas como Lima Duarte e Giovanna Antonelli, mas morreu ali. No ano seguinte, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) também se esforçou neste sentido com a campanha “Time Agro Brasil”, com o Pelé à frente motivando produtores rurais, mas, novamente, fruto de uma comunicação “interna”. Em 2018, CNA está promoveu “Agro forte. Brasil forte” com o mesmo viés motivador. TV Globo fez uma linda campanha para atingir a sociedade e pecou ao dizer que o Agro é pop, pois ainda não atingimos este patamar. Band teve a mesma iniciativa, e com a vantagem de ser dona do Terraviva, um canal específico de agronegócio, tentou acertar no conteúdo; entretanto, e infelizmente, o índice de audiência não permitiu um grande alcance. Em suma: continuamos na roça.

Por outro lado, se tem alguém que pode e deve fazer uma comunicação efetiva, perene, e que chegue a todos, é o próprio agente do campo: o produtor rural e todos os profissionais ligados ao agronegócio. Como? É muito simples: deixando o coração falar sobre as coisas boas feitas no campo e dividir isso de forma massiva nas redes sociais. Madre Teresa de Calcutá não lutava contra a guerra, ela lutava a favor da paz. O nosso maior erro é que gastamos energia demais lutando contra o que não gostamos, em vez de a favor do que acreditamos. Assim, você que é produtor rural, engenheiro agrônomo, veterinário, zootecnista, técnico, vendedor de máquinas e implementos agrícolas, enfim, você que é do Agro, e tem tanto amor pelo setor, deixe a boca falar o que o seu coração sente sobre as coisas boas do campo e quintuplique a sua comunicação positiva.

Por outro lado, é necessário que não divulguem mais mensagens de camisetas que dizem que "a agricultura é a arte de perder dinheiro, enquanto se trabalha 400 horas por mês, para alimentar pessoas que acham que você as quer envenenar”. Esse tipo de medida afasta em vez de aproximar o campo da cidade. Pior: hostiliza quem também provê o pão de cada dia do produtor, porque, afinal de contas, o negócio dele não vai sobreviver sem clientes. Ou vai?

Ledo engano achar que não é mútua a dependência de quem produz e a de quem consome. É certeiro que se este cliente se sentir ofendido, ele comprará de outro que o respeita e compreende que cliente tem a prerrogativa básica de exigir um excelente resultado. Se você que é do Agro ainda não percebeu isso, tenha cuidado, porque as grandes empresas para quem você fornece já perceberam que o consumidor mudou e só estão comprando de quem entendeu o recado de um público e de um mercado cada vez mais exigente e competitivo, respectivamente. Atualmente, o comprador não consome só produtos, mas, principalmente, conceitos de sustentabilidade.

O maior erro de um empreendedor é subestimar consumidores e mercado. É a morte empresarial. E embora o produtor rural seja o mais corajoso de todos os empreendedores, porque mete as caras enfrentando riscos seríssimos que fogem ao seu controle, como o clima, por exemplo, ele ainda não incorporou a mentalidade de um grande empresário com visão estratégica de negócio, missão, visão, valor e por aí vai. Em vez disso, ele prefere continuar se defendendo de quem fala mal dele de uma forma desapropriada. Só tenho uma coisa a lhe dizer, meu estimado AgroAmigo, minha estimada AgroAmiga, a quem valorizo, respeito, mas a quem não me privo de fazer observações sinceras: “Se não quiser agir pela boa-fé de compreender e abraçar o seu novo cliente, que seja ao menos pela estratégia empresarial”.

Vamos lá: não é a gentileza que gera gentileza? Então, eduque, em vez de revidar agressivamente. Se for piada de mau gosto, responda de maneira leve e esportiva. Promova amor e conhecimento, em vez de ofensas. Concentre a sua energia plantando sementinhas sobre as benfeitorias do campo, inclusive sobre as práticas agroambientais para os leigos no tema.

Resumindo: plantem o bem sobre o agronegócio para toda a sociedade e colherão o bem de volta. Ninguém melhor do que você, do Agro, sabe o que acontece quando se planta uma semente ruim. A excelente comunicação, que resultará na valorização do agronegócio aos olhos da sociedade, depende exclusivamente de VOCÊ. Nunca é tarde para jogar fora os velhos conceitos, o orgulho e plantar coisas boas para quem carece de informação. Feito isso, germinaremos o que me orgulho de chamar de Novo Agro: empreendedorismo, sustentabilidade e comunicação efetiva da porteira para fora. 

Um AgroAbraço de quem só quer lhe ver crescendo e sendo valorizado. 

Lilian Dias

Lilian Dias é jornalista especializada em agronegócio, possui MBA Executivo pela ESPM, com foco em habilidades de gestão de pessoas e práticas de liderança, e é autora do e-book "Os Pilares do Agronegócio".

Workshops onlines e gratuitos pelo link: https://www.liliandias.com.br/botoes

Instagram: @jornalistalilian - E-mail: contato@liliandias.com.br 




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